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Poeta Mário Gomes - Santo e Bandido

O poeta Santo e Bandido - Seu compromisso radical é com a máxima liberdade possível. No entanto, o poeta pagou caro por isso: Foi submetido a quase todos os métodos de tortura e violência. No hospício da Parangaba, levou 12 choques elétricos aos 20 anos de idade. Nessa época de viagens, prisões, recolhimentos em manicômios já começara a se tornar o boêmio da Praça do Ferreira e começava a escrever seus primeiros poemas. Aos 60 anos de idade, o poeta é lenda viva de Fortaleza.

O poeta, quando nasce com o dom da inspiração, prescinde até mesmo de uma formação cultural acadêmica ou livresca. Do contrário não encontraríamos autêntica poesia em repentistas da estirpe de um Oliveira de Panelas ou de um Otacílio Batista, nem na capacidade criadora de um Patativa do Assaré, que tanto nos encantam pelo dom de sentir as verdades essenciais da vida e transmiti-las com o verbo mágico da síntese ritmada. Mário Gomes, desde a infância, considerou monótona a vida na província e sempre sentiu o incontido anseio de percorrer o mundo para aprender novas formas de viver e recolher as flores de sua inspiração poética.

Conhecer novas cidades, ruas exóticas, praças diferentes daquela que sempre freqüentou, a Praça do Ferreira, onde estabeleceu-se cotidianamente, todas as tardes, acompanhado de um grupo de colegas de ócio, desde o tempo em que se vem devotando à poesia. Alimentou sempre o ideal de conhecer os bairros exóticos, diferentes do periférico e proletário Bom Sucesso, onde vive há mais de quatro décadas, outras praias, outras noites com seus bares cheios de poetas boêmios e garotas bandidas, poetisas aventureiras, etc.

Por isso, apesar de sentir júbilo em haver nascido em terra cearense, sua alma de boêmio determinou que viajasse, com ou sem condições financeiras, pelas principais capitais do Brasil, onde encontraria o ânimo da urbanidade e a vida noturna que lhe alimentassem a insaciável sede de experiências inauditas. Na terra de Castro Alves, por exemplo, buscou contacto com artistas, boêmios, malandros e aventureiros na cidade de Salvador, onde viveu algumas de suas grandes e perigosas aventuras.

E no Rio de Janeiro, cidade das maravilhas, na geografia como na beleza de suas mulheres, o poeta foi também algumas vezes à procura de inspiração. Passeou pelas praias, bebeu nos bares e apreciou as mulheres mais belas do mundo, as cariocas. Tentou em vão encontrar o poeta Vinícius de Morais nos bares de Ipanema e de Copacabana. Tudo era pretexto para viajar de qualquer maneira, de ônibus, quando ganhava a passagem de presente de algum amigo, de carona ou mesmo a pé, pois nunca tinha grana suficiente.

Considerava o Rio de Janeiro o paraíso da poesia, habitado pelo deus da lírica e do romantismo, o carismático e cortejado Vinícius, com quem poderia desfrutar de um bom papo na base do uísque, que certamente o imortal poeta não hesitaria em oferecer a Mário, ou da cachaça, caso o encontrasse numa rua da Lapa, o que Mário seguramente apreciaria muito mais. Viajar é, sem dúvida, uma fonte de inspiração. Por isso, percorreu também, de ônibus, a pé ou de carona, as estradas que conduzem a São Paulo e Belo Horizonte, deslocando-se àquelas cidades em várias ocasiões, e tendo experimentado situações esdrúxulas, insólitas e sofridas, mas curtidas com estoicismo e êxtase, pois o importante era realizar o sonho andarilho e viver novas e inusitadas experiências.

Um poeta não deve confinar-se ao seu escritório de trabalho ou a seu quarto de estudos. Há que sair pelas ruas, freqüentar os bares e as praças, contemplar as mais diferentes paisagens, sentir a grandeza do universo em seu pensamento, e, se possível, tentar entender como na natureza estão contidos os planetas e as galáxias e sentir na própria alma a expansão do mundo e das idéias.

A duras penas deu vazão ao seu gosto pela vida sem fronteiras, pela liberdade sem limites. Seu ideal de viver intensamente e viajar sem sossego se realizou, apesar de haver encontrado, na adolescência, um freio implacável, na figura autoritária de seu pai, homem simples, de classe média-baixa, motorista de táxi, cuja concepção moral chegava ao extremo de uma justiça inflexível e mesmo cruel. Por outro lado, teve na presença materna exemplo de bondade e pureza, que herdou, e ainda hoje demonstra em seu relacionamento com os seres humanos, apesar de, aparentemente, ter-se comportado, em alguns momentos de sua vida, com a mais absoluta irresponsabilidade, o que a meu ver é perdoável, em se tratando de um poeta.

Pois bem. Seu pai, o Sr. Benedito Ferreira Gomes, certamente bem intencionado, queria fazer do Mário um homem trabalhador e responsável, mas adotava, como princípio fundamental em sua concepção de vida, a proibição taxativa do direito a que os filhos entrassem em casa após as 10 horas da noite. Este mandamento paternal passou a incomodar Mário a partir da adolescência, quando todo jovem anseia por libertar-se do jugo dos pais. O desentendimento entre ambos, em razão da hora de chegar em casa à noite, foi o motivo para que seu pai o expulsasse de casa, desencadeando um processo de desvínculo do poeta com os ritos formais da sociedade.

Segundo Mário, o seu pai, apesar de ter sido muito rígido em sua educação familiar, era um bom sujeito, pois manteve a família, até o dia em que partiu de casa, com os recursos indispensáveis para a sobrevivência. E isso, em sua opinião, é exemplo de bondade e ensino do caminho do bem. Com ele aprendeu a nunca mentir. Um dia o velho o chamou de vagabundo. Mário ficou triste e traumatizado. Mas foi uma profecia, afirma o poeta, pois ainda hoje continua vagabundo.

De fato, Mário, que já possuía um emprego, trabalhando como professor em escola primária, depois do episódio da expulsão de casa, abandonou o magistério e passou viver como um cigano ou um mendigo, a dormir nas ruas, alimentando-se mal, ingerindo bebidas como um alcoólatra. Como o poeta declara, por causa de seus vícios, tornou-se um suicida em potencial. Fez da morte sua amante predileta. Considera-a "uma criatura adorável", pois ela pode nos proporcionar o estado sublime de não sentir mais dores, nem sede, nem fome, nem raiva, nem tédio, nem angústia e nem ser obrigado a tomar banho ...

nada enfim ... "A morte é uma passagem para a vida sem o destaque de dores, pancada na canela e chifre". O incidente com o genitor apenas aguçou-lhe a tendência à vida livre de compromissos ou o seu compromisso radical com a máxima liberdade possível. Mas o poeta teve de pagar com sofrimento sua desmedida coragem e seu gosto excessivo pela aventura. Foi submetido a quase todos os métodos de tortura e violência criados pela crueldade da sociedade deste século, com suas sofisticações tecnologicamente elaboradas.

No hospício de Parangaba, por exemplo, quando tinha 20 anos de idade, Mário levou 12 choques elétricos. Foi preso diversas vezes, e nos cárceres onde esteve, sondou a profundidade dos abismos da alma humana, e hoje detém o conhecimento de uma espécie de psicólogo formado na universidade do mundo.

Na época de suas viagens, prisões e recolhimentos em manicômios, já começara a adotar a conduta boêmia e já escrevera os seus primeiros poemas. A propósito, um fato engraçado na vida do poeta foi a observação feita por uma antiga namorada, a Valdora, que, após três meses de namoro e ao perceber-lhe a tendência errática e dissoluta, disse-lhe uma frase que foi como uma revelação, inclusive inspirando-lhe um poema. Chamou-o de cachorro vira-lata, porque notou que Mário não gostava de trabalhar, e só fumava e comia quando pedia a alguém.

Quando Mário chegou em casa escreveu: "sou um cachorro vira-lata. Não tenho residência fixa, não tenho responsabilidade. Também não me falta sexo porque conheço lindas cadelas de tipos diversos. Onde chego procuro alimentos. Fumo à hora que me é propícia, um cigarrinho, com filtro ou sem. Sou um cachorro valente. Mas só na aparência, pois sou um cachorro vira-lata." Um 'curriculum vitae', escrito pelo próprio poeta, para um concurso municipal de poesia, se resume no seguinte: Mário Ferreira Gomes.

Nasceu em Fortaleza no dia 23 de julho de 1947. Concluiu o primário no Grupo Paulo Eiró em São Paulo. Fez o secundário no Curso Humberto de Campos. Foi professor do antigo curso de Admissão ao Ginásio, na escola Albaniza Sarazate. Iniciou o curso de Arte Dramática na UFC, sem concluí-lo. Tendência às artes plásticas e caricatura. Tornou-se autoditada e boêmio. Mário conseguiu emprego de professor no Colégio Albaniza Sarazate no dia em que o diretor da escola o viu rindo de um cego que dava aulas e propôs-lhe um desafio: que se colocasse no lugar de professor para ver como não era fácil.

Caso Mário fracassasse, seria, como castigo, exposto ao escárnio de todo o colégio. Aceitou o desafio e, após o êxito alcançado, chegou a passar dois anos naquele estabelecimento escolar, dando aulas de português, história, geografia e aritmética, para o exame de admissão ao curso ginasial. Quanto à data de seu nascimento, sua mãe afirma que nasceu no dia 26 de abril de 1947, mas na certidão de nascimento tem a data de 23 de julho de 1947. Para maximizar a vantagem, celebra aniversário nas duas datas.

Seu pai, que sempre foi motorista de táxi, de ônibus e de caminhão, o matriculou, aos 4 anos de idade, no Jardim da Infância do Parque das Crianças, em Fortaleza, ao fim do qual concluiu o ABC, tendo tirado o diploma de "doutor do Beabá". Desta época, recorda um episódio que, a meu ver, o caracteriza como uma criança dotada de capacidade superior às demais de sua idade. Um dia, depois de uns seis meses que freqüentava o Jardim da Infância, o pai que sempre ia buscá-lo na saída da escola, no táxique dirigia, não apareceu.

Mário foi pra casa só. Enquanto muitas crianças se perdem pela cidade com 6 ou até oito anos, e ficam chorando e gritando no meio da rua, ele, demonstrando já um talento pra enfrentar determinadas situações difíceis, com 4 anos apenas, tomou um ônibus, sem ajuda de nenhum adulto, e conseguiu chegar em casa.

Certa feita contou-me sua mãe, a senhora Nenzinha, que Mário, com 10 anos de idade, quando a família morava em São Paulo, cuidava de seu irmão Paulo Roberto, enquanto ela saía para vender costura. Balançava a rede para fazer dormir o irmãzinho menor, e logo corria para jogar bola na rua, em frente à casa onde morava. Quando o Paulinho acordava, ele tornava a balançar a rede e depois voltava a jogar. Até Paulo Roberto completar 3 anos de idade era Mário quem se encarregava de cuidar da criança. Da infância, tem a grata recordação de um bom e fiel cachorro, de nome Tupy, cujo caráter corajoso e apaixonado se parecia com o do seu dono.

Era um cachorro valente, pelado, "pé-duro". Mário gostava de vê-lo brigar com 5 cachorros e botá-los pra correr. Era uma espécie de sultão poderoso: suas cadelas eram exclusivas, não as dividia com nenhum outro cachorro. Mas tinha medo de fogos. Quando Mário assoviava ele vinha correndo tão velozmente que um dia, ao passar por baixo de suas pernas, Mário se desequilibrou, caiu e quebrou um braço. Por causa de sua admiração pelos caninos, Mário diz que se reencarnasse queria ser um cachorro.

"Dentre amigos encontrei cachorros, dentre cachorros encontrei amigos". Mas se tivesse que recomeçar a vida, talvez não fizesse tudo o que fez. Tem medo de repetir as doidices que cometeu. Quem esquece o passado está condenado a repeti-lo. Contudo, não se arrepende, acha que fez tudo como uma aprovação para viver uma vida mais harmoniosa e salutar numa próxima encarnação. Seus pais se transferiram para São Paulo quando Mário tinha 9 anos de idade.

Ali residiu por 7 anos, no bairro de Santo Amaro. Com 13 anos arranjou emprego numa alfaiataria como cobrador. Levava as cartas de cobrança aos clientes inadimplentes. Saía para visitá-los e voltava com os recibos das cartas assinados, não pelos clientes, mas por ele mesmo. Falsificava as assinaturas, e com o dinheiro do ônibus que o alfaiate lhe dava, ía tomar banho numa lagoa que existia em outro bairro. Ao retornar a Fortaleza, com 16 anos de idade, ficou hospedado, durante um mês, na casa do seu primo, o professor Luiz Cruz Lima.

Seus pais íam visitá-lo alí nos fins de semana. Mas não permaneceu por mais tempo, pois num domingo, quando se preparava para sair ao cinema, para assistir a um filme de Elvis Presley, a mulher do primo mandou-o lavar a casa. Ele abandonou imediatamente a casa do seu anfitrião. Ao tomar conhecimento de sua partida, Luiz Cruz o procurou e falou-lhe - "Mário, sua atitude foi pueril". E ele: "Meu irmão, eu não gosto de ser subjugado por ninguém e nem de ser subordinado a ninguém." Contudo, Luiz Cruz, ao perceber a inteligência precoce do jovem primo, permitiu que Mário estudasse 6 anos de graça no curso Humberto de Campos, do qual Luiz Cruz era diretor.

Mas parecia-lhe, em alguns momentos, que o primo estava arrependido de haver-lhe concedido tal privilégio, o que Mário notava, com sua intuição inata. Portanto, não tinha prazer continuar estudando alí. Mas um episódio curioso veio reaproximar os dois primos. No ano de 1964, no início da ditadura militar, o professor Luiz Cruz Lima refugiou-se, durante um mês na casa de Mário Gomes, no Bom Sucesso, subúrbio de Fortaleza. Naquela época Mário havia começado a dar aulas no Colégio Albaniza Sarazate.

Luiz, ao observar uma das aulas ministradas por Mário, decidiu contratá-lo como professor do curso Humberto de Campos. Assim Mário, aos 17 anos de idade, passou a estudar e ensinar no mesmo colégio. Mas apesar do seu talento natural e de sua didática intuitiva, a experiência do magistério durou pouco tempo. Durou o suficiente para deixar, na memória de alguns jovens, a marca de suas idéias excêntricas, sua explicação de certos temas complexos para aqueles pupilos a quem ensinava a filosofar na mais tenra idade.

Propunha questões e suscitava debates em torno de alguns porquês, cuja inclusão nos programas do ensino contemporâneo parece inconcebível. Por exemplo, fazia-lhes refletir sobre por que Deus criou o mundo, por que o ser humano morre e se após a morte existe outra vida. Enchia a cabeça daqueles meninos destas intermináveis interrogações, pelas quais eles se tomavam de crescente interesse. Após o episódio do grave desentendimento com seu pai, fato que transtornou-lhe a vida, sua missão de instrutor do Colégio Humberto de Campos foi definitivamente interrompida e desviada para a desbragada prática da vagabundagem, ditada pelo anseio de liberdade e pela tendência à boemia que sempre o caracterizaram.

Quando começou a beber, vadiar e viajar sem um destino certo, abandonou todos os hábitos e compromissos que exigissem responsabilidade, rigidez de horário ou cumprimento de determinada rotina. Interessava-lhe a sua Praça do Ferreira, a qual esposou como uma noiva ideal, e a companhia dos amigos de copo, como o Temóteo, o Adson, o Edmar e outros malandros, andarilhos, amigos do álcool, fiéis à dose de aguardente como os galos ao milho. Desde a infância, Mário sempre foi admirador dos playboys, dos bandidos.

Queria ser um daqueles caras sobre os quais os jornais escreviam -- roubou um carro, etc... Sonhava possuir os sapatos brancos e as roupas berrantes que as lojas exibiam em suas vitrines. Seu ideal sempre foi o de curtir a vida livre e sem compromissos ou preocupações. Após conhecer alguns dos amigos de farra, como o Temóteo e o Adson, começou a comparecer às aulas meio embriagado, o que contribuía para exacerbar as idéias exóticas que divulgava sobre o mundo e a vida.

Antes da criação, dizia, Deus olhava a própria cara como um espelho. Depois, aborreceu-se e decidiu fazer as coisas. Basta de solidão, pensou Ele. Mesmo Deus se sentiu só e preferiu a companhia dos pertubadores seres humanos a ter que viver no mais absoluto silêncio. E criou o homem parecido com Ele, mas não igual, para que ele não seja capaz de tomar-lhe o poder numa investida de rebelião. Portanto, se Deus é esperto, nós também devemos ser. A meninada ria à beça das idéias do professor.

Com relação à expulsão de Adão do paraíso, negava-se a crer que tal fato se dera por causa de uma simples maçã. Se assim fosse, porque se permite ainda hoje a venda de tal fruta nas mercearias e supermercados? Então, por sua maldição, a maçã deveria ser proibida como uma droga nociva, mas não é. E toda vez que a gente comesse uma, já ia direto pro inferno. Desse modo, as crianças das escolas Albaniza Sarazate e Humberto de Campos achavam mais interessantes as interpretações dos fatos bíblicos feitas pelo Mário do que as do vigário que comparecia semanalmente para as aulas de catecismo. Depois das aulas, o professor Mário Gomes comprava 2 litros de cachaça, 4 carteiras de cigarros e ía para a Praia do Futuro, levando livros de Vinícius, Castro Alves, Olavo Bilac e Fernando Pessoa, seus poetas prediletos.

Ficava à noite bêbado, lendo em voz alta e falando com o mar, "desafiando os deuses e demônios, no auge da embriaguês". Lembro-me de que numa entrevista concedida a um jornal de Fortaleza, por ocasião da divulgação do lançamento de um de seus livros, ao ser indagado sobre o que significou a experiência de professor de filosofia para crianças, respondeu que não tentava ensinar nada às crianças, pois elas já sabiam ser espontâneas, alegres e intuitivas, como os adultos deveriam ser.

Perguntado sobre seu trabalho com a poesia, afirmou que consiste em recolher na natureza a poesia de cada momento. O trabalho do poeta é o contrário do que fazem algumas pessoas, que trabalham pensando só nos lucros. "Se eu trabalhasse assim me sentiria um otário". Indagado ainda sobre como se auto-define, redarguiu: "como me definem as pessoas que me conhecem: pilantra e vagabundo, pois fico todas as tardes, de 13 às 18 horas, na Praça do Ferreira, olhando os carros e as pessoas passarem ou recebendo os amigos. Não é por isso que eu bebo?" .

Pergunta a si mesmo. Segundo constatou o amigo Carlos Paiva, num artigo de jornal, Mário, ao conversar com seus colegas de ócio, em plena pasmaceira das tardes cálidas, fica sempre "atento ao ventinho que levanta saiolas."

Foto de Bruno Macedo Ainda adolescente, ao retornar de São Paulo, em 1983, Mário conheceu um grupo de playboys, que o povo chamava de 'rabos de burro', porque tinham o cabelão grande que escorria pelas costas. Fez muitas farras com o grupo, liderado pelo famoso Ivan Paiva, um marginal da classe alta. Durante as farras, costumavam roubar carros e passar a noite circulando com o automóvel, bebendo uísque, fumando e conversando. Os jovens que compunham o bando, entre os quais o Djafre, o Elmo e o Émerson, para citar apenas os principais, o convenceram a praticar algumas travessuras desse tipo.

Com eles, de vez em quando, roubava um carro, passava num posto de gasolina, enchia o tanque e se mandava sem pagar. Depois, os vagabundos passavam numa mercearia, pegavam pacotes de cigarro, garrafas de uísque e outras coisas. O comerciante, feliz, botava tudo em caixas. Então, Djafre dizia: olhe, vou pegar o dinheiro no carro. E aí... pé no acelerador... Ao clarear o dia, abandonavam o carro em alguma rua. Na noite seguinte, repetiam a mesma façanha... Mário se lembra do dia em que, com os companheiros 'rabos de burro', tirou uma rural da garagem de uma casa, no centro de Fortaleza.

Luis César batia o record pela rapidez com que fazia ligação direta. Mas naquela noite, depois de empurrarem a rural até o meio da rua, quando Luis estava fazendo a ligação, Elmo avisou: vem vindo a PM! Mário, embora estreante na arte de roubar rurais, não hesitou e falou: seu guarda, dá uma mãozinha aqui. Os PMs empurraram a rural e a turma de malandros se mandou, dando risadas. Quando amanheceu o dia, colocaram a rural dentro da garagem da casa de onde a haviam tirado. O que mais lhe marcou a vida, segundo declara, foi descobrir-se poeta com 18 anos, depois de libertar-se do jugo implacável de seu pai, que partiu de casa quando Mário tinha 20 anos.

Por inflexível determinação, o seu genitor não permitia que os filhos adolescentes chegassem em casa depois das 10 horas da noite e por esse motivo chegou a expulsar de casa o próprio filho. Esse fato contribuiu decisivamente para desencadear o processo de desregramento e boemia em sua vida. Seu pai era selvagem, castigava os filhos pelos mais insignificantes motivos. Ele e os irmãos apanharam, muitas vezes, apenas por causa de um peido. Tinha carinho apenas pela menina, a única irmã de Mário, e a mais nova.

Seria esta a razão porque, na infância, o poeta brigava tanto com os outros meninos, na escola primária? Sentia, desde criança, uma espécie de revolta contra a tirania do pai, o que provavelmente se refletia em seu relacionamento com os outros meninos. O certo é que, às vezes, chegava em casa ensangüentado de tanto brigar. Mas sempre pedia desculpas aos colegas. Começou a escrever em 1966, aos 18 anos. Seu primeiro poema foi escrito depois de uma briga com um amigo, por causa de uma namorada.

Deu-lhe um murro. Foi a maior confusão. O poema diz o seguinte: "noite calma e violenta, o cão atenta... Alguém leva um murro por causa de uma rixa. Em compensação minha mão incha." A partir de então a veia poética o persegue para sempre. O murro foi um pretexto, pois o dom já existia. Como ele se auto-define, tornou-se um amante das estrelas, um devoto da lua. E embora perplexo com o primitivismo da humanidade, e às vezes se considerando "o mais vil dos cearenses", sonha escrever um poema perfeito como a criação divina. Logo depois do episódio do murro, com vontade de ganhar algum dinheiro para publicar seu primeiro livro, intitulado Lamentos do Ego, Mário arranjou emprego numa loja de confecções de nome Escol.

No terceiro dia de trabalho decidiu comprar algumas roupas e revendê-las, por um preço mais caro. Apesar de andar sempre de táxi, chegava sempre atrasado. No dia em que chegou com um copo de Ron Montila na mão, foi despedido pelo gerente da loja. Nesta época, ano de 1968, conheceu o poeta Laércio de Menezes e, por seu intermédio, o Clube dos Poetas Cearenses. Em 1970 foi publicado na Antologia de Poetas do Ceará, organizada por aquela agremiação de jovens sonhadores que se reuniam aos sábados, na casa de Juvenal Galeno, no centro de Fortaleza.

A partir de então foram-lhe mais pródigos os prêmios da inspiração e com eles vieram as viagens e as extravagâncias. Ao assumir definitivamente o seu compromisso com a vida desregrada, passou muitas noites sem dormir ou dormindo pelas ruas e alimentando-se precariamente, até ficar desnorteado, falando em voz alta nas ruas e nos ônibus, escrevendo e recitando poemas nas praças, e andando, durante esse período, maltrapilho e sujo. Ganhava de presente roupas novas, ternos e sapatos, do amigo poeta Luiz Ribeiro, advogado e exímio sonetista, que conhecera no Clube dos Poetas e de quem se tornara colega de farras, e vendia tudo para gastar com bebida alcoólica, cigarros, mulheres etc.

No Clube dos Poetas conheceu diversos jovens com talento para as letras e com eles celebrou amizade e manteve intercâmbio de idéias. O Clube, em suas reuniões hebdomadárias, era freqüentado por alguns adolescentes que, atualmente, figuram na lista dos principais autores da literatura cearense. Alí, sob a égide da família do poeta Juvenal Galeno, contando com o apoio logístico da escritora Cândida Galeno, também conhecida como Nenzinha Galeno, que emprestava a casa para as reuniões, os jovens escritores líamos poemas e discutíamos literatura e outros assuntos do domínio do intelecto.

Dentre os moços idealistas e visionários que freqüentavam aquele domicílio da poesia, recordo de alguns nomes, como o João Batista, por exemplo, que misturava poesia com física e anunciava uma teoria revolucionária que revogaria todo o sistema da relatividade de Einstein. O Fernando Neri, poeta, compositor e cantor, de afinadíssima voz, intérprete de grande sensibilidade da música popular brasileira. O Vanderlou Oliveira, sempre acompanhado de duas ou três namoradas ao mesmo tempo, proeza que ninguém sabe como conseguia realizar, inclusive porque não se incomodava em dividi-las com os amigos e nem elas se opunham a tais liberalidades.

O Clébio Carneiro, de quem recordo um verso que dizia: "calafetaram todas as portas ou todas as saídas". De fato, era a época em que, no Brasil as portas da liberdade política e de expressão estavam realmente calafetadas. Havia o Gerim Cavalcante, na época estudante de Direito e autor de poemas de alto teor metafórico, tal como aquele de preocupações humanistas, em que dizia "o ventre não há de parir robôs". Havia o Rembrandt Esmeraldo, poeta de forte preocupação social, mas com um conteúdo lírico marcante, que falava do adeus das amadas mortas e indagava "o que restou do teu silêncio?" .

Rembrandt ficou conhecido pela excentricidade com que declamava um poema que começava com os versos "os corpos das amadas mortas tombarão de encontro aos vidros" e terminava, de maneira surpreendente, com o poeta atirando-se ao chão, o corpo rígido, mas amparando-se com os braços, para que o rosto não se chocasse contra o solo. Carneiro Portela era mentor intelectual da agremiação. Dele recordo-me de um poema que costumava recitar, no qual perscrutava a solidão das criaturas na noite agônica do mundo.

Havia também o Natalício Barroso, que publicara seu primeiro livro "Os Deuses e o Deus", de profundas indagações metafísicas e com musicalidade nascida das fontes recônditas do eu. E ainda o Jarbas Júnior, que na época escrevia haikais que já revelavam a tendência espiritualista de sua poesia. E o Mário Nogueira, com óculos de fundo de garrafa, o Iton Lopes, boêmio e bonachão, que era na farra uma das companhias prediletas de Mário Gomes, o Francisco Marques, ator e poeta, o Nemésio Filho, raquítico e de barba rala.

O Eurico Bivar, poeta e pintor. O inolvidável Valdemar Garcia, ator e pianista, que apesar de não escrever poesia, recitava, com a mais tocante sensibilidade, os maiores poetas da língua portuguesa. Havia diversos outros, como o Walden Luiz e o Ricardo Guilherme, ambos aficionados à dramaturgia, e que se tornaram diretores de teatro, tendo promovido e participado de diversas peças no Teatro José de Alencar e no teatro de bolso da EMCETUR. Quando cheguei ao Clube dos Poetas, em 1975, convidado por Mário Gomes, encontrei alguns destes amigos e outros foram aparecendo depois.

A entidade já havia sido fundada há alguns anos e os seus freqüentadores se renovavam naturalmente. Tinha gente que já não aparecia por lá. O Aírton Monte, por exemplo, que era bastante citado pelos demais, e cuja presença jamais vi nas sessões daquela mini-academia. Dir-se-ia que Airton havia sumido depois que passara em Fortaleza uma caravana de ciganas feiticeiras. Mas a verdade é que se havia formado em medicina e a dedicação que sua profissão exigia o impedia de participar das atividades sociais do grupo, freqüentado, em sua maioria por estudantes com formação cultural ainda incompleta, mas que já traziam o germe do talento que propiciaria a elaboração de suas obras futuras.

Diante de todos, Mário Gomes destacava-se pela espontaneidade irreverente, pelo primitivismo de sua expressão tosca, mas de grande sensibilidade humanista. Além disso, Mário sempre foi o protótipo do anti-acadêmico e a bagunça e informalidade que sempre promovia alegravam as sessões e retiravam do grupo qualquer ranço de pretensão acadêmica. Guardo inapagável memória daquele tempo em que sonhávamos publicar antologias que nos trouxessem o mais rápido e consagrador reconhecimento público.

Sobre as mentes dos circunstantes pairava a sombra benevolente de Juvenal Galeno e a proteção da figura austera e mansa de Nenzinha Galeno. Estou convicto de que o Clube dos Poetas merece um lugar de destaque na historiografia da literatura do Ceará. Constitui lacuna na obra do historiador, poeta e crítico Sânzio de Azevedo, intitulada "Literatura Cearense", a não inclusão do Clube dos Poetas entre as agremiações literárias que pontilham na história do Ceará.

O escritor Airton Monte o recordou, em sua coluna no jornal O Povo, como uma saudosa entidade poética, onde se reuniam os mais promissores jovens poetas de Fortaleza. Naquele recanto de lirismo, os bardos principiantes tinham uma oportunidade de ampliar seus conhecimentos através do intercâmbio que mantinham durante os recitais e saraus realizados na velha Casa de Juvenal Galeno. E Aírton justifica ter freqüentado pouco tempo aquele grêmio pelo fato de ser difícil explicar às namoradas que estava, em pleno sábado, fazendo um sacrifício em prol da literatura. Foi na Casa de Juvenal Galeno que Mário encontrou guarida muitas noites em que regressava da boemia e ingressava pela porta entreaberta para dormir no assoalho da sala de reuniões, com a conivência imperceptível do Sr.

Oscar e de Dona Nenzinha Galeno. Ali se recolhia até as primeiras horas da manhã e partia com os primeiros raios de sol, antes que os donos da casa se levantassem. Este hábito se repetiu por muitas vezes. Naquele tempo não havia tanto assalto e era possível manter as portas das casas sem tranca, fechadas apenas com o trinco. Uma noite, após uma peregrinação boêmia, Mário entrou, deitou-se e pegou no sono, estendido no chão, no palco do auditório.

Mas Dona Nenzinha e o Oscar escutaram-lhe o ronco e o acordaram. Pediu desculpas e se retirou. Algumas vezes, depois da meia-noite, quando já não havia ônibus para o Bom Sucesso, dormia sob os portais do Teatro José de Alencar. Numa dessas ocasiões, um ladrão tentou roubá-lo (se é que havia algo que subtrair-lhe). Mário reagiu. Brigaram. Percebeu porém que estava perdendo, pois era o mais fraco e tentou fugir. Mas voltaram a brigar mais quatro vezes por não conseguirem identificar os próprios chinelos no meio da briga.

Isto é, Mário pensava que as sandálias do ladrão eram as suas. Por ventura, passou um conhecido e rapidamente retirou da cintura do meliante a enorme faca que este portava, a qual, graças ao anjo guardião do poeta, o larápio, no calor da briga, esquecera de utilizar. Hoje em dia a Casa de Juvenal Galeno ainda funciona como centro cultural e recebe poetas e intelectuais, entre os quais o pessoal da União Brasileira de Trovadores, que foi durante muitos anos presidida pelo inolvidável Vasques Filho, e da Sociedade Brasileira de Astronomia, sob os auspícios do astrônomo e escritor Rubens de Azevedo, bem como a Ala Feminina de Escritoras, fundada por Cândida Galeno.

Graças à simpatia e ao desvelo de Alberto Galeno, irmão de Nenzinha, o local ainda se mantém disponível para estas atividades culturais. Situada na rua General Sampaio, em pleno burburinho comercial, a mansão de Juvenal Galeno é um refúgio ante a confusão e a zoada dos camelôs e do trânsito que circula nas imediações da Praça José de Alencar. O busto de Juvenal Galeno mantém-se impávido na entrada do recinto e ainda se vêem, nas paredes da sala principal, as fotos de alguns bardos, dentre os melhores representantes da literatura cearense.

Há também um pátio bucólico, circundado de árvores seculares, onde em algumas ocasiões, especialmente nos dias 25 de dezembro de cada ano, se reuniam simultaneamente os trovadores e os cantadores, em festas memoráveis, uns recitando versos e outros improvisando-os no dedilhar da viola. Os saraus na Casa de Juvenal Galeno já não têm o mesmo encanto dos tempos de Nenzinha Galeno, mas ainda dão guarida aos tesouros da tradição cultural do Ceará e do Nordeste brasileiro.

Apenas o Clube dos Poetas extinguiu-se definitivamente, talvez pelo próprio desinteresse ou perda de ideal e da capacidade de sonhar da maioria dos seus ex-sócios. Só quando seu pai partiu definitivamente de casa é que Mário pode regressar ao lar. Depois de haver passado 3 meses pelo centro da cidade de Fortaleza, pelas boates, curtindo altas pingas, vinho "sangue-de-boi", mulheres, noites em claro, dormindo pelas ruas, sentiu que estava com um distúrbio mental.

Então, no dia 20 de janeiro de 1967, seu primo, o professor Luiz Cruz Lima, o mesmo que o hospedara e empregara, encontrou-o, por volta de 8 horas da noite, em frente ao Cine São Luis, na Praça do Ferreira e lhe disse: "Mário, teu pai quer falar contigo, quer que tu volte pra casa." Mário não sabia que era uma cilada e que queriam botá-lo no hospício. Entrou contente na rural do Luiz, sem preocupar-se, pois chega-se ao Manicômio de Parangaba pela avenida Benfica, pela qual também se tem acesso ao bairro onde Mário reside.

Tal como premeditara, Luiz entrou no Hospital São Vicente de Paulo, para trancafiar ali o nosso poeta. O psiquiatra de plantão era o Dr. Clodoaldo Castelo Branco, que inclusive não era médico ainda, era apenas estagiário. Segundo Mário, aquele jovem acadêmico de medicina o usou como cobaia. Foi enganado por ele e por um padre, que prestava serviços "espirituais" aos doidos. Ambos o conduziram pelos corredores do hospital. O Dr. Castelo Branco, com a mão no ombro de Mário, disse-lhe: "você vai jantar comigo hoje".

Depois, entraram num quarto onde já havia alguns loucos hospedados. Não tinha saída, Mário teve que se entregar aos três enfermeiros que o esperavam. Eram grandalhões como leões de chácara. Três trogloditas halterofilistas, que o deitaram numa cama, amarraram-lhe os pés e as mãos, colocaram um lenço em sua boca e deram-lhe o primeiro choque na cabeça. Quando retornou a si, colocaram-no em uma cela, como numa prisão, com grades de ferro. Um cubículo.

Com outro débil mental. Não tinha banheiro. Tinha que defecar numa lata. Levou 12 choques. Depois de 17 dias preso, o colocaram numa cela vizinha, em companhia de um doido forte que, após 3 dias de tentativa, conseguiu romper a grade do janelão. Quando Mário conseguiu passar o corpo para o lado de fora, o louco gritou: fugiu um doido, fugiu um doido! Pegaram-no e colocaram-no noutra cela. Passou um mês trancafiado, com outro paciente, outro doido, vamos dizer assim.

Aí, de 3 em 3 dias, aplicavam-lhe um choque na cabeça. Uma tortura. Imagino o quanto sofreu o nosso poeta, na flor dos 20 anos, cheio de ingenuidade e sensibilidade, nas mãos de um bando de insensatos. Este drama vivido por Mário Gomes faz lembrar o martírio sofrido pelo poeta Antonin Artaud, que também foi alvo dos perversos métodos da terapia psiquiátrica. É natural que um adolescente indefeso, fustigado por indivíduos de mentalidade tacanha, se sentisse apavorado com aquela situação.

Mas a agilidade mental dos poetas é um instrumento que sempre os ajuda. Depois de um mês de reclusão, Mário notou que as irmãs de caridade que trabalhavam ali convidavam os "melhorados" para assistir à missa aos domingos. Teve então a idéia de pedir a uma freira: irmanzinha, deixa eu assistir a missa domingo. Ela falou com o médico e Mário foi com dois enfermeiros à igreja. Assistiu à missa e, quando terminou, viu que as velhinhas beatas passavam com panos na cabeça, dizendo: a missa terminou, a missa terminou...

Então, no exato momento em que os enfermeiros se distraíram, pegou um véu de uma velhinha, botou na cabeça e também saiu dizendo: a missa terminou... E quando chegou à porta, ao perceber que estava na rua, deu um carreirão, pegou o primeiro ônibus que ia passando e fugiu em direção ao centro da cidade. Havia passado 3 meses no manicômio. Depois de uns 3 ou 4 dias que estava na rua, encontra com o seu pai, pede desculpas, perdão a ele e este o leva para casa.

Mas o conflito teria que ter o seu desfecho: depois que regressou à casa, tentou mais uma vez chegar após as 10 horas da noite e seu pai o ameaçou de novo de expulsão. E como sua mãe tentara defendê-lo, o pai disse: Nenzinha, ou eu ou ele. E sua mãe disse: ele. Então, o pai partiu de casa para sempre. Em 1970 voltou a passar 3 dias no manicômio. Desta vez foi por espontânea vontade. Mas fugiu de novo. Tinha dúvida se os médicos estavam certos ou errados.

Isto é, questionava se estava realmente louco ou não. Sentia uma grande euforia e falava sem parar. Perguntou então ao Dr. Clodoaldo (ainda acadêmico): "rapaz, o que é que eu faço pra passar essa agitação?" . E o futuro médico lhe disse: Mário, leve outro choque, que isso passa. Aceitou a proposta do terapeuta mas, arrependido de haver voltado ao hospital psiquiátrico, fugiu depois de 3 dias. Essas reclusões nos hospícios, durante dez anos, foram a maneira que a família encontrou de livrar-se de suas peraltices incômodas ou talvez de tentar, sem consciência, ajudá-lo a adaptar-se às regras da sociedade.

Mário foi colocado oito vezes em manicômios em Fortaleza, e 3 vezes em Salvador. Mas, em todas as ocasiões, conseguiu fugir. Não aceitava a idéia de que a psiquiatria pudesse curar a loucura, que lhe parece mais um fenômeno espiritual, enigmático, que uma doença. E o seu caso não era loucura, embora o tivessem tratado como um louco. Por isso, ficou revoltado, não consentia que tratassem um doente mental como um prisioneiro, aplicando-lhe injeções e choques, dando-lhe doses quase letais de psicotrópicos, cujo consumo a própria sociedade proíbe.

Contudo, acha que foi bom que sua mãe tenha posto remédios em sua comida durante vários anos, como vem fazendo até hoje, pois isto evitou que tivesse feito maiores danos à própria saúde, passando mais dias embriagado e noites em claro, perdido em absurdas perambulações. Revelou-me que atualmente toma doses de Anatensol, Haldol e Neozine, (este último com efeito tranqüilizante, e os outros dois, excitantes), de modo que a combinação deles resulta na diminuição da capacidade física e mental do indivíduo.

Uma espécie de "sossega leão", para inibir as ações perturbadoras de pessoas demasiado inquietas. De acordo com o diagnóstico do Dr. Clodoaldo Castelo Branco, Mário era um tipo leptossomático, tímido ao extremo até aos vinte anos. Devido à necessidade de ensinar no curso para o exame de admissão, o esforço feito ultrapassou os limites da consciência normal, provocando uma estafa mental que redundou num quadro de psicose. Só não se tornou um alienado mental total porque se descobriu poeta e a poesia é uma grande terapêutica.

Mas acredita também que talvez os medicamentos psiquiátricos o tenham ajudado um pouco. No dia em que se submeteu à perícia, para comprovar que teria direito à aposentadoria por invalidez, o médico atestou que Mário sofria das faculdades mentais e o poeta, em vez de esconder o diagnóstico, com vergonha ou pudor, saiu pressuroso, orgulhosamente, a mostrar aos amigos o teor da declaração. E arremata o assunto com a seguinte máxima: "sempre disse aos amigos que eu era doido por uma doida que era doida por mim".

A propósito, achou engraçado aquela música do Raul Seixas: "me aposento com saúde pela previdência social". Parece que foi feita para ele, pela coincidência com o seu caso. "Eu tenho saúde, só não tenho vocação para o trabalho", afirma com convicção. Desse modo, diz estar tão acostumado ao seu ritmo ocioso, a não fazer nada, que quando encontra alguma ocupação se sente muito mal. Isto só em relação ao trabalho braçal, burocrático ou alguma obrigação inevitável, pois quando é evitável, não cumpre.

Certo dia o poeta Costa Sena, ao vê-lo tranqüilamente curtindo as horas, sentado num banco da Praça do Ferreira, perguntou-lhe se não tinha jamais alguma preocupação. E a resposta: minha única preocupação é tentar não me preocupar com nada. Em 1972, com saudade da metrópole onde viveu entre a infância e a adolescência, (dos 11 aos 16 anos) fase que marca a vida de qualquer pessoa, Mário resolveu rever a terra de seu xará Mário de Andrade. Já com 25 anos volta a São Paulo, para rever os amigos de adolescência.

Depois de um mês encontra o Cláudio Galo, classe média, que ao vê-lo maltrapilho, deu-lhe um terno tropical inglês, um par de sapatos de cromo alemão e certa quantia em dinheiro. Vestido assim, a rigor, e com o que gastar no bolso, saiu empolgado para o centro da cidade. Cerca de 10 horas da noite entra numa boate, na avenida São Luis, perto da Consolação. A boate cheia. Era um sábado. Senta a uma mesa vazia. O garçom chega e diz: às ordens, cavalheiro.

Ele pega o cardápio, escolhe o uísque marca JB, o mais caro. Para se ter uma idéia, o uísque custava 120 cruzeiros e a passagem de São Paulo para Fortaleza custava 115. Aí, inspirado ou por outra, pirado, diz ao garçom: colega, eu sou irmão do Jesse Valadão, venho do Rio de Janeiro hoje para escolher algumas mulheres pra fazer uma filmagem. Se tiver alguma mulher desocupada aí, manda pra minha mesa. Uns minutinhos depois havia 8 mulheres ao seu redor.

E altos papos, mentiras, altos baratos, aquele negócio todo, e tomando o uísque. Mas não teve sorte, porque chegou uma mulher com uma bandeja de cigarros e ele pegou uma carteira de cigarros "charme" pra cada uma das mulheres. E quebrou a cara, porque o cigarro tinha que pagar na hora. O cigarro não era da boate, era particular. Deu a maior confusão, lá vem a polícia e tava ele em cana. Um polícia lhe deu um murro na cara, ele caiu e fingiu que estava desmaiado.

O polícia percebeu, deu um pontapé e disse: "levanta vagabundo". Quando ele se levanta, é arrastado para dentro da Rádio Patrulha, com a escolta de 3 soldados. O sargento disse - quer dizer que tu é malandro interestadual, né? - Não doutor, eu tô só me divertindo, sou um cearense que vim pra cá, tô revendo uns amigos... E o sargento: - eu vou jogar você no Rio Tietê... E Mário: não faça isso comigo. Ficou na delegacia, dentro de uma cela. Por volta de 11 ou 12 horas, notou que o pessoal de guarda tinha sido trocado.

Os policiais que o prenderam foram embora e entraram outros. E observou que na cela onde estava tinha uma brecha, talvez feita por serra, e que dava para passar seu corpo. Estava magrinho naquela época, e à uma hora da manhã, teve a feliz idéia de tentar passar uma perna e outra pela brecha. Conseguiu. Depois ousou atravessar a sala, onde estavam os policiais. Ao vê-los, com a maior cara-de-pau, diz-lhes, "boa noite"... Eles o olharam, talvez pensando que era polícia também.

E quando o poeta chega na porta, dá um carreirão... Perambula pela rua. Às 7 horas da manhã o uísque deu dor de barriga, fez mal. E lhe deu vontade de defecar. Não podia defecar na rua, já estava cheio de gente na cidade. Lembrou-se de que na avenida São Luis tinha um amigo seu, que morava no segundo andar de um prédio. Foi lá, apertou a campainha, o amigo não estava, não atendia, e a dor de barriga apertando, e teve de fazer o serviço na escadaria do prédio...

Quando termina, é flagrado pelo ascensorista do prédio. Diante do imprevisto, Mário tirou tranqüilamente a gravata, a carteira de cigarro, o fósforo e o lenço, limpou tudo, e botou o conteúdo num pacote feito com o lenço. E permaneceu de cócoras, estarrecido. O ascensorista fez um alarme, acordou a vizinhança, chegou até velha de camisola para olhar aquele negócio. E o Mário de cócoras, com o saquinho na mão. Depois de uns dez minutos chegam os policiais.

O polícia, ignorante, o vê ali naquela posição e diz, "esse é que é o vagabundo? E, pá! dá-lhe um pontapé... Levanta!... Mário levantou-se bruscamente. Foi preso novamente. Nesse dia apanhou... Dentro da Rádio Patrulha, tentou argumentar, apelando para o bom humor dos policiais: "mas rapaz, você me prendeu porque eu c*.... Você não c*.., esse guarda c*.... Antes que conjugasse o verbo em todas as pessoas, o guarda fica puto e grita... "cala a boca!" Ele calou.

No outro dia, segunda-feira pela manhã, às 9 horas, na sua vez de ser interrogado, o delegado pergunta: e esse rapaz, o que é que fez? E contaram o caso. E ele: mas você prendeu o rapaz porque fez isso? Porque c*...? Ninguém prende ninguém porque c*... não, rapaz! E talvez por acreditar que se tratava do efeito de uma dose de leite de magnésia, determinou que não havia fundamento naquela prisão defectiva. Em 1973, na segunda viagem a São Paulo, ficou pouco tempo naquela metrópole.

Foi ao encontro da poetisa Marilita Posoli, já velhinha, mas sempre generosa. Ela o acolheu fraternalmente e lhe deu uma passagem de São Paulo para o Rio. No Rio, depois de uns 3 dias procurando trabalho, arranjou, numa sexta-feira, um emprego numa loja de confecções, na avenida Barata Ribeiro, para começar na segunda-feira. No dia marcado chegou para trabalhar e o gerente o recebeu bem. Começou a trabalhar e percebeu que não vendia nada, pois não entrava ninguém pra comprar e ele via aquele pessoal passando, aqueles cabeludos com o violão debaixo do braço.

E pensou: não, que diabo é isso? Eu tô aqui me sentindo um otário. Ao meio-dia saiu pro almoço e não voltou mais. Foi direto à praia de Copacabana. Naquele tempo não havia tanta violência no Rio de Janeiro, e se podia passar as noites caminhando livremente em qualquer lugar da cidade, sem grandes perigos. Assim, o poeta passou um mês andando com hippies, vagabundos, malandros de toda sorte, sem ser molestado pela polícia nem pelos bandidos. Andou sempre sem dinheiro.

Todas as viagens que fez foi sem tostão no bolso. No Rio, chegava nos restaurantes e perguntava aos garçons: tem um resto de comida que teja sobrando aí? Nos restaurantes de comida sofisticada os garçons eram autorizados a dar comida que sobra aos mendigos. A aparência do poeta, naquela época não diferia muito da de um mendigo. Era fácil conseguir restos de comida que metia dentro de um saco e fazia o seu banquete no chão de alguma praça ou de uma esquina qualquer. Mas o detalhe interessante foi que enjoou do Rio e decidiu viajar de novo.

Na rodoviária encontrou o Costinha, aquele famoso cômico de televisão. Aí pensou, é uma oportunidade de dar uma ferrada nele, pra conseguir comida e cigarro ou até uma passagem de ônibus. Falou: "Costinha, me arranja uma grana pra eu tomar uma birita." E ele lhe deu 5 notas de um cruzeiro. Mário achou pouco e devolveu. E saiu andando. Depois de uns 10 minutos voltou e foi pedir de novo o dinheiro. "Costinha, eu aceito a grana". O comediante riu e disse: rapaz você tá é doido. Viajou naquele dia da rodoviária do Rio até Petrópolis, a pé.

Passou dois dias andando. Conheceu por lá um poeta, com quem fez amizade e conseguiu uma passagem de Petrópolis a Fortaleza, com trânsito por Petrolina. Durante a viagem foi falando de poesia e contando peripécias pra um monte de gente. E então uma mulher, já coroa, velhota, se engraçou com o poeta, se apaixonou, sei lá... Queria sentar ao seu lado. Ele não gostou da velha, não simpatizou, achou que era macumbeira, pelo tipo de assunto que falava.

Quando chegou a Petrolina, desceu do ônibus, revoltado com a velha macumbeira que o perturbara. Passou 7 dias em Petrolina, sem conseguir carona. Uma noite, um negão chegou pra ele e disse: "você que é o Mário Gomes?" Ele disse, sou. Aí o negão lhe deu um tapa na cara, sem-vê-nem-quê, só perguntou se era o Mário Gomes e lhe deu o tapa. Mário pensava que ele estava armado e correu. Na esquina, chegou um fusquinha com uns 6 soldados da PM e ele disse: "polícia, um cara me deu um tapa alí, me agrediu, eu acho que ele tá armado".

Aí a polícia chega e agride o cara, enche o sujeito de porrada. Mário viu que a boca tava quente e correu. Viajou de Petrolina a Salgueiro a pé, passou 6 dias e 6 noites andando. Pedia comida naquelas casinhas de beira de estrada. Lembra que, uma noite sem lua e sem estrelas, andando na escuridão, treva total, mais ou menos uma hora da madrugada, só estrada e o matagal do lado, viu dois olhos a olhá-lo assustadoramente e fazendo: hum...hum... Ele, pensando, que diabo é aquilo? Se andava apressado, os dois olhos o acompanhavam, emitindo um insólito som: "hum...hum..." Se parava, os olhos também paravam, se andava de novo os olhos tornavam a segui-lo.

Com medo, apavorado, resolveu enfrentar aquela aparição. E percebeu que era um jumento! O jumento com medo dele e ele com medo do jumento. Ao chegar a Salgueiro, no amanhecer, foi até a Agência do extinto "Expresso Fortaleza" e contou ao gerente que havia saltado do ônibus porque fora tratado com grosseria por uma pessoa. O gerente constatou que havia sido deixado um passageiro em Petrolina e disse-lhe que esperasse o ônibus que vinha às 8 da noite do Rio para levá-lo de graça a Fortaleza.

Às 2 horas da tarde, conseguiu, em um restaurante, um prato de comida. Então, chegou um mendigo e pediu a comida. Mário, com pena, deu o prato recém-obtido. O mendigo, negligentemente, botou o almoço de Mário num saco e saiu dizendo: "vou comer mais tarde quando tiver fome." Mário, furioso, deu um pontapé no mendigo, pegou a comida e jogou fora... A realização de uma viagem posterior foi decidida de maneira insólita. Em 1975, quando bebia e conversava com o amigo desenhista Vavau, no bar Londrina, em Fortaleza, falavam sobre o Rio de Janeiro e decidiram subitamente ir de carona para a cidade do Pão de Açúcar.

Foram às suas casas, cada um pegou 3 camisas e 2 calças e tomaram um ônibus até Messejana, sem um tostão no bolso. Amanheceram na marquise de um colégio. Depois pegaram carona até Pacajus e foram pegando caronas durante 9 dias de viagem até Feira de Santana. Ali, uma hora da manhã, foram dormir na rodoviária. Decidiram batalhar um café. No bar estava o poeta Rodolfo Coelho Cavalcante, que lhe pagou a passagem até Salvador. Dormiram na casa dele. De manhã, Rodolfo arrependido de haver dado guarida a dois vagabundos desconhecidos, os expulsou de sua casa.

Mas deu-lhes 500 folhetos de poesia de cordel para que vendessem. Na seqüência Mário teve que desligar-se de Vavau. Passou 20 dias freqüentando a Biblioteca de Barris, distribuindo os folhetos de Rodolfo Coelho Cavalcante. Já estava com estafa mental e física, quando obteve, com Dona Lucinha, proprietária da cantina da biblioteca, uma passagem de volta para Fortaleza e umas roupas do marido dela, sapatos de cromo alemão e camisas de seda. Sete meses depois voltou a Salvador, foi à biblioteca, e Dona Lucinha disse, ao vê-lo, "você aqui de novo?" E ele: "Dona Lucinha, eu vim apenas agradecer aquela bondade que a Senhora fez comigo." Passou mais 45 dias comendo de graça na cantina dela.

Ela ficava admirada com o papo do poeta, pasmada com os seus poemas, dos quais ele recitava apenas os que não a fizessem corar. E assim fez com que a cantineira descobrisse sua vocação de mecenas, já que resolveu sustentá-lo outra vez com os lanches de sua cantina e dar-lhe outra passagem de volta a Fortaleza. Num sábado do mês de junho de 1975, de novo em Salvador, passara o dia todo tomando cana e à noite, já estonteado por uma ressaca braba, tomou quatro copos de leite, no intuito de recuperar-se e ir ao cinema. Retornou a Fortaleza, e sete meses depois voltou à capital baiana.

Nessa viagem, quem pagou o seu retorno a Fortaleza foi o amigo Miguel Cirilo, impressionado com a situação do Mário em Salvador. Durante suas viagens, relacionou-se com os mais exóticos tipos humanos, como por exemplo, um louco que conheceu em Salvador, na Praça da Piedade, o qual, semelhante a um faquir permaneceu de 6 horas da tarde às 6 horas da manhã olhando fixamente para a lua cheia, sem mover o rosto, com a cabeça erguida para o céu. Impressionado com o louco, Mário permaneceu também toda a noite fitando a cara pasma do demente.

Segundo me confidenciou, toda esta paciência se deve a que, na época, também se achava psiquicamente debilitado. Havia passado 9 dias na indigência do Hospital das Grotas. Ali também levou choques elétricos. Depois dos 9 dias num quarto com janelas de vidro, quebrou a janela com um pau da cama e fugiu. De madrugada, em seu delírio de fugitivo, quanto mais andava para fugir, mais se aproximava do hospital. Até que finalmente pegou um caminhozinho e foi direto ao centro da cidade. Noutra viagem, foi com o amigo Vicente, andarilho de primeira viagem, inexperiente e tímido, para o qual arranjava comida, cigarros, café, etc.

Depois de 9 dias e cerca de 30 caronas, chegaram a um posto de gasolina em Jequié. Vicente, vencendo a timidez, teve coragem de pedir um cigarro a um motorista, e o fumou todo sem oferecer ao companheiro de andanças que tanto o ajudara. Mário reclamou desta falta de atenção do colega, os dois discutiram, e Mário disse: "vamos cada um pra um lado." Depois de meia hora de caminhada, arrepende-se de ter abandonado o amigo inexperiente na arte de "estradear" e regressa ao local.

Ao chegar já não o encontra. Nunca mais reviu aquele amigo. Nessa mesma viagem teve uma experiência triste com um mendigo que conheceu nas quebradas do sertão, em plena peregrinação a pé pela caatinga nordestina. Era um velhinho que peregrinava por aqueles confins e com quem conversou durante algumas horas de caminhada. Numa encruzilhada, acharam um despacho de umbanda, com um estrogonofe, vatapá, duas garrafas de cachaça e 8 charutos. O mendigo comeu o estrogonofe e o vatapá e Mário bebeu a cachaça e fumou o charuto.

10 minutos depois, o mendigo estava suando frio, babando, vomitando, revirando os olhos. A comida envenenada matou o velhinho. Mário, por medo de ser envolvido no falecimento do velho, achou por bem abandonar o cadáver e seguir viagem. O poeta confessou-me que não gosta de recordar esta história. Contou-a apenas a 3 pessoas. Tentou esquecê-la por ser horripilante. Quando chegou a Salvador, foi direto a um bar perto do Pelourinho tomar alguns tragos.

De repente um marginal deu-lhe, pelas costas, uma paulada no ombro e correu. Mário correu atrás do sujeito, xingando-o. O cara subiu num batente e pegou um paralelepípedo. Mário disse: tu é tão covarde que não tem coragem de jogar essa pedra na minha cabeça. E reclinou a cabeça sobre o batente. Imediatamente o sujeito joga a pedra. Mário, num reflexo imediato, retira a cabeça. Mas a pedra bate-lhe em cheio na mão, estraçalhando-a. Apavorado, chorando, esperneando, esticando os dedos, conseguiu consertar a mão.

Mas ela ficou inchada, como a mão de um monstro, e doendo terrivelmente. Passou 2 meses nessas condições. Ele mesmo fazia os curativos, numa farmácia. E ficou totalmente curado, sem ir ao médico. Não procurou uma emergência ortopédica, por medo de que lhe cortassem a mão, tal era o estado em que se encontrava. Tempos depois, escreveu um poema sobre a importância de não ter ficado "maneta": "a minha mão direita é meu divertimento, é meu cinema. Não posso destruí-la, senão ficarei sem vida". Continuou viajando periodicamente para a Bahia, atraído talvez pelos orixás da poesia ou pelo encanto das baianas.

Foi 10 vezes a Salvador. Sempre sem dinheiro. Passava dois ou 3 meses vagando na mais dissoluta boemia e voltava magro, com altas pirações, tomando estimulantes como "Catovite" e "Reativan" para continuar o ritmo de suas aventuras. No ano de 1977, na terceira viagem a Salvador, depois de um mês freqüentando a Biblioteca Municipal, apaixonado pelas lindas bibliotecárias, com as quais, embriagado e inspirado, conversava o tempo todo, lendo-lhes poemas e contando interessantes anedotas, a diretora achou que estava atrapalhando o serviço de suas funcionárias, e numa discussão com Mário, telefonou para a polícia, dizendo que tinha um louco querendo apedrejar os vidros da biblioteca.

Chega a polícia e o leva pro hospício. O médico conversa com ele uns dez minutos e o manda embora. Em seguida Mário volta à biblioteca e começa tudo de novo. Durou um mês essa briga com a diretora, ela o mandando para o hospício e para a prisão e ele voltando sempre para chatear. E ela, naturalmente, já estava ficando mais neurótica do que ele. Mas ao poeta importava a generosidade e a atenção que as funcionárias lhe davam, e pelo prazer da companhia daquelas musas, enfrentava os maiores perigos. Certo dia surgiu na Bahia um marginal que ficou conhecido como "o homem do canivete", um débil mental que furava as nádegas das mulheres e se escondia.

Segundo se dizia, gostava de furar mais as das estudantes e das funcionárias públicas. A população de Salvador achava-se apavorada, sobretudo as mulheres. Todo homem que flertava com uma mulher suscitava suspeitas. Podia ser o homem do canivete. E a polícia, como acontece em tais situações, prendia o indivíduo como suspeito. Mário foi a pior vítima, seu caso foi horrível. Ele estava, por volta de 9 horas da manhã, no Colégio Central do Estado da Bahia, tentando filar uma merenda que o governo dá para os alunos, quando uma estudante, por brincadeira ou por sacanagem, disse: "ó o homem do canivete!" E os outros alunos foram se aproximando e ela dizia é aquele ali, e começaram a dar-lhe murros, pontapés, por fim aglomeraram-se 400 alunos com a intenção de linchá-lo.

Foi a maior surra que levou na vida. Os professores da escola apartaram a briga e o levaram para a sala da diretora, trancaram a porta e telefonaram para a polícia. Quando a polícia o levou algemado na Rádio Patrulha, o carro policial foi apedrejado. Passou cerca de 5 horas em investigações, todos os jornais o entrevistaram, as televisões o filmaram e, ao final fizeram as devidas acareações. As 22 vítimas do homem do canivete o salvaram, porque quando o viram, confirmaram que não tinha sido ele o autor das perfurações em suas nádegas.

Às 11 horas da noite Mário foi solto e foi dormir na marquise da biblioteca, onde sempre dormia. Ao acordar às 7 horas da manhã, saiu andando pela rua e viu, em todas as bancas de jornal, a sua foto publicada, com as manchetes dizendo, "homem espancado por parecer com o tarado". "Estudantes lincham cearense." Ficou apavorado e teve vontade de nunca mais voltar a Salvador. Partiu para Fortaleza, com uma passagem de trem presenteada por uns amigos, que fizeram uma "vaquinha" para "repatriá-lo". Numa das viagens para o Rio de Janeiro, foi até à cidade de Muriaé, e de lá foi expulso pela polícia.

A burguesia achou de mandar prendê-lo, porque participara de uma serenata estridente, na companhia de uns bêbados que perturbavam o sono de metade da cidade. O delegado o colocou na estrada. Pegou uma carona até Governador Valadares, onde passou 16 dias e foi preso 3 vezes. Na última das prisões perdeu todos os documentos. Depois de liberado, conseguiu, por intermédio de uma amizade com um operário, cujo nome não recorda, uma passagem para Belo Horizonte.

A caminho da capital mineira, numa parada do ônibus, enquanto folheava o jornal O Estado de Minas, que havia disponível na lanchonete, leu o artigo de um jornalista mineiro, que havia passado 10 dias em Fortaleza e declarava-se encantado com a cidade, tendo sido muito bem recebido pelo governo e pelo povo fortalezense. Uma frase no artigo lhe chamara mais a atenção: "tenho uma grande dívida com o povo cearense, que jamais irei saldar". E Mário pensou: pô, esse cara vai me dar a passagem de volta pro Ceará. Ele gosta muito do povo cearense... Chegou a Belo Horizonte, no mês de julho, às 8 horas da noite, com um frio violento, e ele magrinho, só com a roupa do corpo, sem documento, sem nada.

Foi logo procurar o jornalista, que se chamava Hélio Fraga. Disseram no jornal que Hélio Fraga só trabalhava de meio-dia às sete da noite. E ele tinha que passar a noite toda, até as doze do dia seguinte, para poder falar com o homem. Depois de dormir numa calçada, sobre o exemplar de O Estado de Minas, acordou com os primeiros raios de sol, com a polícia pedindo-lhe os documentos. Como ele não os tinha, foi em cana. Ficou 15 dias preso. Não sabiam quem ele era, nem a sua procedência.

Havia muita violência em Belo Horizonte. A polícia soubera que o famigerado bandido Lúcio Flávio estava pela cidade e acharam que Mário poderia ser um dos fugitivos da gangue. Durante os difíceis dias que passou na prisão, em desespero de causa, tinha atitudes que complicavam a sua situação. Um dia pediu um cigarro a um policial e este o negou. Mário, num gesto de ousadia e loucura, desafiou-o, dizendo: "então enfie no c*." O policial o tirou da cela e o espancou durante meia hora.

Na semana seguinte tornou a apanhar por causa de uma briga com dois marginais que começaram a provocá-lo. O policial pegou uma palmatória e deu-lhes sete pancadas nas mãos, com tanta força que se desse a oitava as mãos estourariam. As de Mário ficaram inchadas, azuladas e doloridas durante muitos dias. Depois do castigo, os três foram tristonhos e cabisbaixos para a cela. Um hippie, seu companheiro de cárcere, depois de uma semana que estava preso, gravou o nome de sua mãe e o endereço, e quando saiu, escreveu para ela.

Dona Nenzinha, mãe de Mário, ao receber a carta, foi à Casa de Juvenal Galeno e falou com a outra Nenzinha, a escritora Cândida Galeno, que trabalhava na Polínter, a qual conseguiu, através de contatos com as autoridades mineiras, fazer com que a polícia de Belo Horizonte liberasse o nosso poeta. Quando o soltaram, não explicaram por que. E

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💬 Comentários (9)

Moni Saraiva 07/12/2011 01:31
Leila, parabéns pelo blog.

Como você, sou apaixonada por Fortaleza.

Encontrei o poeta Mário Gomes hoje no Dragão do Mar, o que me causou a inevitável necessidade de escrever, visto que já estive com ele em tantos eventos poéticos, já compartilhei muito da sua presença. E encontrá-lo assim, desestabiliza.

Cheguei ao teu blog, procurando por imágens do Mário... Que bela surpresa. Já estou seguindo!

Grande abraço,

Moni
Leila Nobre 07/12/2011 13:36
Oi Moni, Bom dia!

Muito obrigada, fico muito feliz em saber que vc gostou do blog, pois ele é minha paixão! :)

Menina, eu tbm estava na exposição ontem, e em uma das fotos que eu tirei, aparece justamente o Mário Gomes. Me deu um aperto vê-lo naquele estado, já sem forças para lutar contra o maldito vício...

Um forte abraço querida e na próxima (creio que será a linda exposição da Praia de Iracema) quem sabe a gente não se encontre, não é? :D
Ana Cláudia 25/02/2012 02:07
Fui aluna do Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração - Dorotéias entre os anos de 1974 a 1977. Fiz a minha primeira comunhão lá naquela capelinha no dia 30 de outubro de 1977. Tive que mudar para Recife. Vivi nesta escola os melhores anos de minha vida.
Ana Cláudia Cunha D'Assunção - João Pessoa - PB
Leila Nobre 25/02/2012 18:01
Oi Ana, obrigada pelo comentário!
BrunoMac 22/04/2012 04:02
Leila, excelente matéria! Sou muito curioso pela história do poeta Mario, você acaba de suprir um pouco dessa curiosidade. Caso precise de alguma imagem pode me procurar, irei em pronto lhe ajudar com aquilo que fiz por anos, fotografar o poeta. Essa foto PB é minha, fiz em um dos encontros que tive com o poeta nessas andanças na rua. Seu texto é belíssimo, mas colocar imagens sem crédito, seria o mesmo que não assinar um belíssimo Blog como o seu!

bmfotografias@hotmail.com

Att,
Bruno Macedo
Leila Nobre 23/04/2012 14:26
Muito obrigada, Bruno!

Desculpa pela foto, mas no 'Blog Poeta Mário Gomes', para o ql dei os créditos, sua foto consta lá sem seu nome, por isso coloquei só o nome do blog, sinto muito mesmo! Já fiz a correção!

Um forte abraço
Anonymous 16/01/2013 15:26
tenho do do mario gomes queria saber como mudar o mundo
Lucíola FeijA 11/01/2020 18:46
Mário Gomes era um ser de lealdade e respeito empregnados em cada célula. Mesmo quando estava aparentemente louco, eu sabia que não ele era Lúcido e doce. Cuidava das meninas bebadas com todo respeito e zelo. Uma vez ofereci um quarto na minha casa para ele ter como base de apoio, mas ele não queria aceitar... porque podiam pensar mal de mim, por colocar um homem dentro de minha casa, mas ele falava com um tom ironico, de quem só constata um pensamento acerca daquilo que ele mesmo critica. Por motivos profissionais, afastei-me das festas e eventos no dragão ou centro, mas quando meu filho já tinha seus dois aninhos, fiz questão de apresentá-lo ao Marinho, ficamos muito emocionados... já fazia muito tempo que não o via. Ele me perguntou em tom de brincadeira: _ Você quer que eu morra, de tanta emoção? e ria muito, abraçava, coisa que ele mal fazia. Vc veio aqui no dragão só me apresentar seu filhinho? que menino de olhar maduro!!! ele vai ser um grande homem!!! passaram se mais alguns meses... e uma semana antes de sua morte, o encontrei com a testa aberta, lutando para não ser levado pela ambulância, fui falar com ele, tentar convencê-lo, nunca mais esqueci sua resposta: _Você não sabe o que eu quero!!! me deixe livre!!! Já pensou que posso está querendo morrer?! Falei do tanto que ele era amado por tantos conhecidos e amigos.. e o quanto que as pessoas queriam oferecer uma melhor vida para ele. Revelei o quanto lhe amava desde aquele dia que fui apresentada a ele pelo meu namorado filósofo e eles brigaram, pq o mário não aceitava as coisas que o cara pra quem eu fazia tudo falava pra mim. O Mário odiava violência e machismo, amava o respeito ao próximo e à vida. saí... não aguentei vê-lo perdendo tanto sangue.. varias pessoas tentaram convence-lo.. finalmente os paramédicos conseguiram limpar e levá-lo até a santa casa. pelo que fiquei sabendo... Meu amigo!!! sim.. sempre olhava em meus olhos e me aconselhava sobre coisas que nem falava que precisava resolver. Era um guru. Advinhão e muito observador. Generoso Mário, espero que esteja num grande pátio cheio de borboletas, flores, palavras e principalmente pessoas alegres e bebida!!!
Leila Nobre 17/01/2020 01:20
Que depoimento emocionante, Luci!
Obrigada por compartilhar esses momentos conosco.

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