Descalços e banguelos - Um causo sério

. Em 1968. Como este, ano eleitoral. Campanha de tramas. Na cidade, tempo de eleição era um Deus nos valha e acuda. Matreirice à solta. Burlas a lei. Candidatos no ludibrio ao eleitorado. Terra de paupérrimos, analfabetos e desdentados. Pontos fracos do povão e fortes dos políticos curraleiros da desgraça humana. Miguelim, riso fácil, papo do vai dar certo, promessas dos sem faltas e dos sem dúvidas era vezeiro na corrupção. Ou malfeito? Época da popularização das sandálias japonesas.
Identificou-as como meio importante na vitória urnária. Encomendou uma carrada da mesma cor, separadas meio a meio, para os pés direito e esquerdo. Pouco antes da votação, distribuiria as primeiras e, vitorioso fosse, o votante a apresentaria e faria jus à complementadora do par. Novas ideias surgiram-lhe. Contratação de protético que elaboraria duas mil dentaduras. Superiores e inferiores. De tamanhos diversos. Enquanto isso, um dentista extrairia os restos de dentes naturais dos desejosos em utilizar mastigadores postiços. Eleito, distribuiu a chinela faltante a um dos pés do eleitor.
As pererecas foram entregues, porém, com dificuldades. Nos locais de fornecimento, existiam mesa e caixa contendo várias chapas. Em fila, os banguelos, um a um, experimentavam as próteses e, quando as mesmas se adaptavam ao formato bucal, passavam a pertencer-lhes. Alguns testavam dezenas, sem êxito, devolvendo-as à caixa. Outros as pegavam, mergulhavam na água de pequena bacia e as premiam nas gengivas. As trocas duraram dias. O município? Perguntem ao Miguelim.
Não raro, já velho, vem a Capital. Assuntos politiqueiros... Geraldo Duarte (Diário do Nordeste)
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