O avião que caiu na enseada do Mucuripe

O dia era 22 de outubro de 1967 e milhares de pessoas lotavam a faixa de areia do Iate Clube até a Praia de Iracema para assistir ao show aéreo prometido para aquele dia como parte das comemorações da semana da asa. Dez aeronaves participavam do evento e até um alvo incendiário foi montado dentro da Enseada do Mucuripe para demonstrações de tiro. Uma dessas aeronaves era o caça não municiado TF-33 da Força Aérea Brasileira sob comando do 1º Tenente Renato Ayres que havia sido incumbido da missão de fazer manobras acrobáticas durante a apresentação.
O Ten. Ayres tinha apenas 25 anos de idade mas possuia mais de 2 mil horas de vôo em seu currículo. Ele deveria fazer manobras diversas de modo a "permitir ao público máxima visibilidade das evoluções de seu aparelho".
1º Tenente Renato Arzuaga . Ayres da Silva
Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Algo deu errado logo após o meio-dia quando o TF-33 se aproximava a baixa altitude em trajetória paralela a linha da praia para uma manobra ousada em que giraria algumas vezes em torno do seu próprio eixo, chamada de "toneaux".
A aeronave chocou-se com violência contra os verdes-mares do Mucuripe. O impacto causou uma explosão imediata chocando a população que assistia perplexa.
O corpo do piloto foi retirado do mar cerca de 30 minutos após o acidente por "homens-rãs" (como eram chamados os mergulhadores) da Marinha e do Corpo de Bombeiros. No entanto, o impacto da explosão foi tão grande que a aeronave se estraçalhou. Nos dias posteriores membros do piloto foram encontrados em praias da capital.
O momento foi capturado pelo experiente
fotógrafo Esdras Guimarães
Segundo o Coronel-Aviador Edivio Caldas Sanctus que na época era o comandante da Base Aérea de Fortaleza, "o acidente ocorreu quando o avião realizava a segunda virada do dorso, ocasião em que ocorreu uma perda de altitude que os pilotos chamam de 'colherada'. A dois mil metros com o bico do aparelho levantado a manobra não oferece risco. Entretanto o Ten. Ayres realizou a acrobacia a baixa altitude a fim de permitir ao público sua plena visibilidade e o aparelho não teve como compensar a perda de altitude, chocando-se com a água e explodindo imediatamente".
O Coronel Sanctus também se queixou da tecnologia obsoleta dos aviões da FAB.
Segundo ele, os TF-33 já eram aeronaves obsoletas que se tornavam a principal escolha da FAB devido a seu custo-benefício.
Corpo do Tenente Renato Ayres sendo desembarcando no Iate Clube

Relatos:
Meu pai que na época tinha pouco mais de 13 anos, havia combinado com meu avô alguns dias antes de assistir as demonstrações da Semana da Asa. No entanto, no dia do evento meu pai por motivo fútil se desentendeu com meu avô e de birra não foi assistir a apresentação das aeronaves. Resultado: deixou de presenciar um dos "maiores" acontecimentos da cidade na época! Marcus Davis
Eu me lembro deste fato, não que o tenha presenciado, mas soube da queda do avião e eu e uns amigos de férias passando pela praia do Pirambu ali depois da Marinha no terceiro quebra-mar achamos na praia uma perna inteira, depois soube que era deste piloto, estava cortada na altura da coxa. Nós com 6 e 7 anos saimos correndo do local e avisamos aos mais velhos. Nobre
Fotos e textos do blog .
Mar do Ceará. do Marcus Davis Por sinal um blog maravilhoso que todosdeveriam ter a oportunidade de conhecer!
💬 Comentários (24)
Agradeço pelo "maravilhoso blog" :)
Abraços
Lembro também(ouvi falar na época, não sei se a versão é verdadeira) que o Tenente não deveria voar nas demonstrações daquele dia e aproveitou e saiu na noite anterior e teria tomado alguns wiskys. No dia do acontecimento, um dos pilotos não pode voar, ele(o Ten. Ayres) foi escalado e voou um pouco ressaqueado. Isto é o que se comentou à época.
Pesquisei durante anos sobre o ocorrido na Internet e não encontrei nada, simplesmente nada.
Vejo agora o maravilhoso trabalho de resgate da memoria da cidade que vc. fez.
Prof. Daniel C. de Figueiredo
Forte e fraterno abraço querido :)
Vejam este show aéreo com o mesmo tipo de jato.Em momento algum neste show vemos rasantes absurdos,tudo ocorre dentro das normas de segurança.Em 1967 quando ocorreu este acidente com o tenente Ayres este jato possuia 19 anos de uso,pois ele é de 1948,o que não vem a ser uma aeronave totalmente obsoleta.Quando provavelmente não se configura uma causa técnica para um acidente,podemos ter ainda as seguintes causas PESSOAIS e/ou DE FORÇA MAIOR.Provavelmente foi causa pessoal.
Forte abraço e obrigada pelo comentário.
O comandante da BAFZ à época do acidente do Ayres era o Cel.-Av. Sanctus, piloto de patrulha. Ele havia dito que os aviões já estavam obsoletos e reclamou da insegurança em voá-los. O F-80 é comentando por pilotos que já voaram ele como um aparelho pesado, de manobragem complicada e razão de subida "lenta". Vale considerar que quando chegaram à Fortaleza, os aviões F-80 já estavam um pouco "surrados".
A manobra feita pelo Ayres no F-80 à baixa altura foi considerada complicada para o tipo de situação, levando em conta que o avião supracitado possui suas limitações. Os jornais exibiram o fatídico como uma tragédia horrível, como realmente foi. Dias depois ainda tinham pedaços do Ayres não recolhidos em provisão no mar.
Eu verdadeiramente não sabia destes detalhes mais profícuos, como o "whisky na noite anterior" no Clube F80 e da "ressaca". Li acima que antes da explosão, o Ayres pilotando o F-80 tinha "raspado" as dunas, o que prova por experiência de quem estava lá que a imperícia possui um aspecto muito fomentador sobre as causas do Acidente.
Infelizmente o cara morreu muito jovem.
http://www.fortalezanobre.com.br/2012/08/tragedia-na-inauguracao-da-av-leste.html