Novela vivida

Ultrapassava a paixão. Era o viver a novela. Incluir-se em cada cena. Sofrer, alegrar-se, rir, chorar. De viva voz, buscar interagir com o televisor, exigir-lhe respostas. Aplauso, protesto ou manifestação de contentamento mostrava-se de quando em vez.
Dona Luzia transformava-se de telespectadora em participe. Não raro, levantava-se da cadeira e encaminhava-se para junto do receptor. Parecia querer entrar naquele mundo de ficção. Para ela, insofismável realidade.- Conta à verdade toda! A hora é esta! Deixa de querer ser boazinha! Pronto! Agora está sem jeito, sua tola! Ah, vai chorar, né? Bestalhona! A outra vai te passar para trás!
Na foto, montagem com cena da TV Ceará. Em primeiro plano João Ramos e Karla Peixoto.
E mais um capítulo chegava ao fim com os aconselhamentos, protestos, exclamações e, até, interrogações da aficionada fã.
O calendário marcava um dos anos sessenta. Dois ou três depois de inaugurado o primeiro canal televisivo na Capital. Longe da chegada do videoteipe, os dramalhões apresentavam-se ao vivo. Atores locais, também intérpretes de novelas radiofônicas, formavam o elenco das oito da noite nas telinhas convexas, de cantos arredondados, com imagens de pouco brilho, em preto e branco, além das interferências conhecidas popularmente como “chuvisco”. Raras casas possuíam o novo entretenimento.
Daí nasceu à figura do televizinho, o sem-TV que infernizava a vida dos proprietários do novo aparelho. Nossa personagem integrava aquele grupo. Todas as noites fazia-se penetra em uma das únicas duas casas dos providos da rua. As salas ficavam cheias. Os que não mais ali cabiam, postavam-se na calçada. Espremiam-se nas janelas e portas das residências para assistir aos programas.

A privacidade das famílias findava-se. O sossego também. As intervenções inesperadas da idosa senhora chegavam a assustar uns, merecer críticas de alguns e os “psius” da maioria. Ela chegava ao extremo da descompostura aos reclamantes, exigindo suas retiradas do recinto. Enquanto isso, os donos da casa evitavam incompatibilidade com os moradores conhecidos e sofriam resignados e silentes. Novidades tecnologias sempre têm preços e sacrifícios altos. Artigo do amigo e colaborador Geraldo Duarte
💬 Comentários (2)
Oba! É festaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! \o/
Vou lá agora mesmo.
Estou levando brigadeirão.