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Memórias da Praia de Iracema - Parte III

Praia do amor infinito Praia de Iracema em 1931 - Arquivo Nirez Nenhum outro bairro de Fortaleza é dotado de maior vocação icônica do que a Praia de Iracema, nem tão decantado em poemas, livros e canções. Talvez isso decorra de seu extraordinário poder de mutação, autêntica Fênix urbana sempre a ressurgir da fúria de um mar inclemente, ou das ondas contaminadoras dos vícios e descaminhos da noite. Denominada Praia do Peixe, em sua origem na vida urbana de Fortaleza, ganhou o nome atual no fim dos anos 1920, em concurso jornalístico promovido por Adília de Albuquerque Moraes, pioneira do colunismo social no Ceará. O poço da Draga, na Praia Formosa, hoje ocupado pela indústria naval. Ao longe, vê-se prédios como a Secretaria da Fazenda, o Passeio Público e a Cadeia Pública (Emcetur) Nos anos 1930/1940, o bairro era um dos mais elegantes da Capital, disputando com o Benfica e Jacarecanga. a preferência das famílias pertencentes à pompa e circunstância da alta sociedade de então. Tornaram-se famosos os serões artísticos do Jangada Clube, nos quais o industrial Fernando Pinto acolheu o cineasta estadunidense Orson "Cidadão Kane" Welles, e também, no âmbito do paladar nativo, o célebre e degustado caldo de cangulo do pioneiro restaurante Ramon, primeiro local frequentado pelo fortalezense para "jantar fora". Ed. São Pedro - O Iracema Plaza Hotel - Por Eduardo Trecho da praia de Iracema antes da colocação da estátua Iracema Guardiã de Zenon Barreto- Arquivo Nirez Marcando igualmente suas épocas, surgiram o até hoje tão citado Estoril; o Lido, do francês Charles Dell´Eva; o Panela, dos quereres do colunista social Lúcio Brasileiro, e a animada danceteria Tony´s, pertencente ao popular Figueiredão, a princípio conhecido como produtor dos mais saborosos sorvetes e "picolés" da cidade. Diz Gervásio de Paula, jornalista e nostálgico remanescente do apogeu do Estoril, que "o amor continua presente e permanente em todos quantos vivem, sobrevivem e revivem na Praia de Iracema". Por Eduardo Pesca em Iracema - Por Eduardo O mitológico bar passou a ser, a partir dos anos 60, abrigo dos boêmios, artistas, escritores - e da própria vida inteligente de Fortaleza, onde noite adentro se destilava poesia, política e posse transitória de amores enluarados. Antiga Vila Morena, em seguida ex-clube privado dos soldados americanos aqui arranchados durante a Segunda Grande Guerra, hoje o Estoril posa de futura casa cultural com reinauguração infinitamente protelada. Por Eduardo Por Eduardo Propalam as línguas viperinas que, nas entranhas de certas noites dos anos 40, mocinhas fortalezenses da classe média pulavam os muros de suas casas para ir ao encontro dos garbosos "yankees" frequentadores do Estoril. De saldo, restaram muitos bebês loirinhos em Fortaleza ou, nos casos mais afortunados, respeitáveis senhoras, atualmente venerandas vovós, agora residentes em cidades como Boston ou Filadélfia. Tudo sob as bênçãos de Iracema, que também se fez não virgem com um estrangeiro, seduzido por seus saborosos lábios de mel. O mar arrebentando nas pedras - Por Eduardo O famoso Cais Bar - Por Eduardo E houve também as fases tristes. Vítima da fúria do mar, depois da construção do Porto do Mucuripe, Iracema parecia reservada a cumprir o destino preconizado no samba do compositor Luís Assunção e ser eternamente "a praia dos amores que o mar carregou". Pirataria Mas logo ressurgia como ponto fervilhante da noite o Pirata Bar, através da visão lúdica do português/cearense Júlio Trindade, que ali institucionalizou "a segunda-feira mais animada do planeta", para gáudio do exacerbado bairrismo fortalezense, no parecer internacional do insuspeito "The New York Times". Por Eduardo Nos trilhos do tempo - Por Eduardo Quase ao lado da esfuziante pirataria, pontificaram as delícias do requintado cardápio do restaurante "La Bohème", onde imperava a classe fidalga de D. Ignez Fiuza. Fortaleza logo se tornou renomado ponto turístico, o que foi bom por um lado, mas vieram gringos de toda parte e toda sorte, não apenas para ver o pôr-do-sol na Ponte dos Ingleses, mas também ávidos de favores sexuais retribuídos em dólar, fazendo proliferar locais "underground" e pontos de droga no até então aparentemente inexpugnável reduto de charme e tradição. O Estoril - Por Eduardo Por Eduardo É esse lado negativo que se pretende expurgar no momento, pena que por meio de obras tão demoradas, sempre adiando para Deus sabe quando o tão necessário e esperado resgate. Porém, como diria Gertrude Stein, um mito é um mito é um mito é um mito. Sobrevivente da fúria do mar, do abandono dos abonados, da partida de Julio Trindade, do fechamento do Cais Bar e, em tempos mais remotos, da extinção da linha do bucólico bonde que ia até a Igrejinha de São Pedro, certamente a Praia de Iracema renascerá, com aquela força que une o elegante ao trágico, o solar ao sombrio, a alegria aos penares do amor, sentimentos que geram mutações e contrastes nos corações das cidades. É como diz o polivalente artista e "iracemista" Audífax Rios: "Iracemar, verbo intransitivo d´Alencar.

Transitável Iracema, quero caminhar teu presente e teu infinito". José Augusto Lopes Essas casinhas praticamente invadiam o mar de Iracema - Por Eduardo Por Eduardo Histórias de um bairro à beira-mar Na primeira foto, cena de um cotidiano que data ainda do início do século XX, no qual as mulheres desfilavam pela praia com roupas de banho comportadas. Já os homens (segunda foto), de calças arregaçadas, observavam o movimento no Porto, com a chegada das grandes cargas de mercadorias.

Ao mesmo tempo, jangadas encostavam com o apurado, ainda fresco, da pescaria em alto mar. O registro iconográfico atesta as palavras de quem se dedicou ao longo da vida a pesquisar e guardar momentos da história da cidade das mais diversas formas. O respeitado pesquisador cearense Miguel Ângelo de Azevedo, Nirez, cedeu imagens de seu arquivo que serão expostas no Formosa Iracema, espaço do Diário do Nordeste na Casa Cor Ceará 2011. O Ponta Mar Hotel - Eduardo Por Eduardo Além de preservar documentos do passado, a memória do estudioso não falha ao descrever, com propriedade e precisão de detalhes, hábitos, costumes e as transformações que marcaram a constituição da Praia de Iracema. "A Praia teve um período muito forte da intelectualidade no final dos anos de 1940, se estendendo até os anos de 1960, e com sede no Estoril", rememora. Apesar da boêmia e da intelectualidade serem as referências diretas que se tem ao tratar do bairro, Nirez destaca um aspecto que as transformações culturais e naturais até minimizaram, mas ainda não destruíram: a beleza da praia. Como diz o pesquisador, foi a construção do Porto de Fortaleza, na área do Mucuripe, que tirou parte da formosura e da agitação social do lugar.

Ele observa que, durante quase 50 anos, a Praia de Iracema tinha um fluxo muito grande de pessoas graças à ponte metálica . que funcionava como porto. Fotos do bairro com suas casas coloridas - Eduardo Do mar vinham também a pesca artesanal e os jangadeiros que na praia aportavam e faziam parte da Colônia de Pesca Z-1. A Z-2 abrangia a Praia do Caça e Pesca enquanto a Z-10, a única que ainda funciona na atualidade, servia aos pescadores da área do Mucuripe. O fato de o local ser o aporte do fluxo comercial do Estado fez o bairro importante, sendo um dos primeiros a receber os melhoramentos da modernidade, como a Alfândega de Fortaleza e a diversificação dos meios de transportes. "Tinha a linha do trem que descia até a Ponte e como ela cruzava com a linha do bonde que vinha servir à Praia.

Teve um dia em que aconteceu uma batida do bonde com o trem, um acidente que deixou vítimas fatais", explica. Depois, vieram os ônibus, "e era bem servida", destaca. Mas a tradição também andava lado a lado com as benesses do progresso e, conforme Nirez, podia-se ver carroças e pessoas andando a cavalo, burro ou jumento. Rua Boris -Foto de Eduardo Foto de Eduardo Cenário A paisagem da praia não foi alterada somente pela velocidade da vida moderna, mas ainda pelo próprio movimento da natureza.

Com o passar dos tempos, o mar começou a avançar, em resposta à própria construção do Porto do Mucuripe. "No final da década de 1940, o avanço começa a destruir as casas. Foi preciso colocar uma contenção que enfeou a praia, mas foi o jeito, senão ia derrubar tudo", lamenta Nirez. O Iracema Mar Hotel e uma Pizzaria - Foto de Eduardo Terreno onde ficava o DNOCS - Foto de Tiago E, assim, a Praia de Iracema ganha nova feição, em um processo sem volta. A área situada à esquerda da Ponte, por exemplo, conhecida como Praia Formosa, passa a ser ocupada pela indústria naval e pelos armazéns de mercadorias, local hoje denominado de Poço da Draga. Essas transformações, seguidas pelo crescimento da própria cidade para outras regiões, fizeram com que o bairro entrasse em um processo de degradação paisagística e social.

Fenômeno esse que poder público e sociedade civil se esforçam para conter com ações para requalificar a Praia de Iracema. Dessa forma, tenta-se reescrever uma história mais "formosa" para o bairro e também para a própria capital cearense. Naiana Rodrigues A agitada noite da Praia de Iracema - Foto de Tiago As fotos das postagens "Memórias da Praia de Iracema" estão expostas no Espaço Diário do Nordeste da Casa Cor Ceará 2011. Quem quiser apreciar de pertinho, melhor correr, pois conforme o site oficial, a Casa Cor só funcionará até o dia 22 desse mês. De terça à domingo, inclusive feriados: De 16:00 às 22:00hs. Local: Av. Almirante Tamandaré, 22 - Praia de Iracema Ingresso Inteira: R$ 34,00 Meia: R$ 17,00 Estudantes e pessoas a partir de 60 anos.

Crianças abaixo de 10 anos não pagam Informações sobre o Evento (85) 3112-4144 Veja também: Parte I Parte II

Depoimentos sobre a Praia de Iracema Fonte - Diário do Nordeste

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💬 Comentários (4)

Ricardo Borges 11/11/2011 23:58
Leila,
Parabéns pelo seu Blog. Através dele fico conhecendo um passado lindo e maravilhoso dessa cidade que eu amo, Fortaleza. Continue sempre com esse perfil bem informativo ao que se propõe neste instrutivo Blog. Um abraço amigo de quem lhe admira, Borjão.
Leila Nobre 12/11/2011 01:51
Sem palavras, amigo!

Obrigada pelo carinho e saiba que eu sou
uma admiradora sua e do seu "Blog do Borjão"
tbm!

Um caloroso abraço e fico honrada em vê-lo
por aqui! :)
Edirlan Leal 29/07/2014 15:15
Mara Hope em uma das fotos ainda com umas peças a mais =]
Anonymous 07/09/2020 19:59
Olá, me chamo Cláudio Pereira, sou memorialista, poeta e cordelista da Cidade de Icó-CE.
Estou precisando de alguma foto da nossa conterrânea Adília de Albuquerque Moraes.

Poderiam me ajudar ?
Grato

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