Cem anos da seca (1915-2015)
"O céu, transparente que doía, vibrava tremendo feito uma gaze repuxada. Vicente sentia por toda parte uma impressão ressequida de calor e aspereza. Verde, na monotonia cinzenta da paisagem, apenas um juazeiro ainda escapa à devastação da rama”. A escritora Rachel de Queiroz. imortalizou a seca de 1915, mas as palavras da cearense também serviram de retrato de outras grandes secas ao longo desses 100 anos. Muitas pessoas que sofriam com a seca chegaram à capital e, para conter o fenômeno, centenas de retirantes eram, literalmente, concentrados.
Os primeiros campos de concentração foram criados em Fortaleza, um deles no Bairro Otávio Bonfim. O local hoje abriga uma praça e a Igreja de Nossa Senhora das Dores. “A ideia era muito clara: concentrar, disciplinar essas pessoas. Colocar essas pessoas ali pra que elas não perturbassem a ordem social. Lá havia uma rígida disciplina. Não poderiam sair, tinham, muitas vezes, os cabelos raspados, separavam mulheres de homens. Muitas vezes, o governo que administrava os campos. Havia cadeias pra punir quem agisse com indisciplina. Então, era um modo de controle”, explica o professor e historiador Airton de Farias. Veremos agora um conjunto de registros fotográficos de vítimas da seca.
O autor das fotos é Joaquim Antonio Corrêa, cujo ateliê ficava em Fortaleza. Esse conjunto de fotografias pertence atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional. São imagens chocantes, em formato de 'cartes de visite', e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia, e, muitas vezes, as fotos, feitas em estúdio, trazem textos rimados que se referem à miséria.

"Tenho fome! Tanta fome Que já não me posso erguer! Miseria que me consome, Faze que eu possa morrer!"

"Foi o céu inexhoravel Contra á mim, contra á meus paes, Deixou-me na orphandade Entregue a dores e ais!"

"Desgraçado! Assim creança Pae, mãe e irmãos perdi! A miseria á mim se avança Abre as garras e sorri!"

"Triste orphão da ventura Só dores no mundo achei Dá-me oh" Deus a sepultura Onde a paz encontrarei!"

ILEGÍVEL "...
Foi lusidio e feliz! Mas hoje é pallido espectro Que a existencia maldiz"

"Coberto de immundos trapos Dormindo exposto ao luar Falta-me n'alma o talento Té mesmo para chorar!"

"Porque me tornas cadaver, Miseria, que me assassina? Porque plantas tantas dores Na minh'alma inda menina?"

ILEGÍVEL "Vive exposto o corpo meu! Meu pae e mãe, meus amores!" ILEGÍVEL

"Deixei, por amôr a vida Me roubarem o pudor! E hoje mulher perdida Morro de fome e de horror!"

"O filho, como uma furia Ergueu-se a um pão pedio! Pobre pae, ante á penuria Tremeu de fome e cahio!"

"Eu sou cadaver esguio Que por entre os vivos erra; Meu-corpo tomba sombrio No solo da ingrata terra!"

"Tão bello na face outr'ora Eu tinha os risos dos céus! E myrrada pelle agora Cobre mal os ossos meus!" (Obs.: Os textos das fotos estão com a grafia da época) Em 1915, uma seca severa fez com que os sertanejos se dirigissem para as grandes cidades, desta feita o Governo do Ceará, optou por criar o primeiro "campo de concentração, no Alagadiço, hoje Otávio Bonfim, ao oeste da cidade de Fortaleza, lá foram "abrigadas" mais de 8 mil almas a quem eram fornecidas alimentação sob a vigília constante de soldados.
Mais uma vez (sim, essa infelizmente não foi a primeira e não seria a última seca que tivemos) foi estimulada a migração para a Amazônia e o campo (curral humano) foi desativado em novembro do mesmo ano. Decididamente aqueles não seriam anos bons para os cearenses. Depois das duas guerras de 1912 e 1914, seu Jader e sua família iriam assistir em 1915 a pior seca de todos os tempos.



Relatório dos Presidentes dos Estados - 1916

Créditos: G1 Ceará/ Brasiliana Fotográfica
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