As três fases da Itapuca Villa e a luta em defesa dos escravos

Ao lado da casa ficava o escritório de Alfredo Salgado - Embaixo era a garagem. Arquivo de Carlos Alberto Salgado

Rico e de muito bom gosto, Alfredo Salgado desejou o melhor para construir em 1915, sua mansão, a Itapuca Villa, na Rua Guilherme Rocha. Todos os materiais vieram do exterior, inclusive as madeiras. Periodicamente ele viajava à Europa para contratar novos jardineiros (vide recorte ao lado de 1928). A Itapuca Villa, era um dos orgulhos de Fortaleza.

Itapuca após reforma (*) - Arquivo Carlos Alberto Salgado No caminho do Liceu, a imponência da Itapuca Villa, estilo de nobreza implantado numa ampla quadra ajardinada da Rua Guilherme Rocha. A Itapuca, que o descaso administrativo municipal deixou arruinar, foi concebida nos moldes das mansões coloniais inglesas no Oriente, particularmente da Índia. Explica-se: a Itapuca era a residência de Alfredo Salgado, figura histórica do Ceará, com o nome ligado à luta abolicionista, e que fora educado na Inglaterra.
Sabe-se hoje os motivos de ordem econômica que levaram o Império Britânico a pressionar o Império do Brasil a proibir o tráfico de escravos negros, estrangulando a economia açucareira e do café, inteiramente dependentes do braço servil.
Mas Alfredo Salgado. era um idealista, ignorando as razões de política externa dos ingleses contra a escravatura. A luta abolicionista no Ceará tinha razões verdadeiramente humanitárias, culminando em 1884 - quatro anos antes da Lei Áurea - com a libertação dos negros cativos de nossa terra.
Pois a Itapuca, em sua beleza exótica e a exuberância de seus jardins, agasalhava esse típico "gentleman" nascido no semi-árido cearense e que gozava do respeito e da admiração dos seus conterrâneos.
No trajeto para o Liceu, de bonde, a visão da Itapuca Villa era obrigatória.
Com certa frequência, tinha-se oportunidade de ver de perto o seu proprietário, vestido com a elegância de um nobre inglês, calças listradas, casaco escuro com um cravo na lapela. Já bastante idoso, mas erecto e firme, Alfredo Salgado ficava à espera do "Tramway" da Light, na parada fronteiriça à sua mansão. Respeitosamente recebido pelos estudantes, às vezes ganhava deles a deferência de uma vaga sentado quando o veículo estava superlotado. Tempos de fino trato, não obstante a costumeira algazarra da rapaziada liceísta.

O abandono e o descaso do poder público - Arquivo Carlos Alberto Salgado
A Itapuca Vila era o destaque maior na paisagem arquitetônica, mas todo o corredor constituído pela rua Guilherme Rocha até a Praça Fernandes Vieira (hoje Gustavo Barroso), avançando mais além pela Francisco Sá, apresentava um conjunto de luxuosas residências, quase todas em amplos terrenos e com dois pavimentos.
Itapuca Abandonada
A majestosidade entregue à demolição do tempo - Arquivo Carlos Alberto Salgado
A casa, toda de madeira, atualmente está em avançado estado de deterioração, as paredes rachadas e a escada que dá acesso ao pavimento superior totalmente em ruínas, com os degraus apodrecidos, tornando-se impossível chegar ao primeiro andar.

Arquivo . Carlos Alberto Salgado (**) Atualmente o térreo é ocupado por uma família humilde, que lá se instalou há mais de dez anos, não possuindo entretanto uma mínima infra-estrutura habitacional, pois, a casa não possui energia elétrica e o abastecimento de água é feito apenas por uma torneira localizada no jardim. Numa tentativa de se proteger de assaltos, todas as janelas e portas da mansão foram trancadas com tábuas e pregos, aumentando ainda mais o ar de abandono de uma residência que sem dúvida já foi uma das mais bonitas da cidade.

Ao contrário (Felizmente) da Itapuca Villa, a antiga residência de Senador Pompeu não perdeu sua imponência, sendo preservada e hoje abriga a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho (***) - Arquivo Carlos Alberto Salgado A demolição Em dezembro de 1993, é demolida a tradicional casa construída por Alfredo Salgado, na Rua Guilherme Rocha, Itapuca Vila, de arquitetura inglesa.

Depoimentos de Carlos Alberto Salgado Pettezzoni de Almeida:
(*)"Vivi na Itapuca com meu querido avô até os 11 anos. Lembro-me que eu, com 10 anos, meu avô me acordava para irmos à missa juntos, às 5 horas da manhã. Como eu o adorava...
Dentro de seu livro de missa, levava uma nota (dinheiro) como doação."
(**) "Esse era o quarto onde dormia."
(***) "Se não me falha a memória, meu pai a alugou antes de irmos para a casa de meu avô."
Agradecimentos: Ao querido .
Carlos Alberto Salgado, neto do ilustre Alfredo Salgado, que gentilmente me cedeu todo o material necessário para essa postagens. Todos os créditos vão para ele.
💬 Comentários (23)
Att.:
Carlos Alberto Salgado.
Não tenho palavras para
expressar o que estou sentindo
nesse momento, é muita felicidade!!!
Ter um legítimo "Salgado" em meu blog,
é algo que não tem preço...é o que faz
valer muito toda a dedicação que coloco
em cada postagem que publico no 'Fortaleza Nobre'.
Seu querido e inesquecível avô fez muito
por Fortaleza e pelo Ceará, é mais que
justo que sua memória seja preservada e
conhecida por todos os cearenses, é algo
que muito nos orgulha!
Muito obrigada por TUDO, querido
e gentil Carlos Alberto Salgado
Um abraço e parabéns pelo blog,
Socorro Nogueira
Sobre a planta, vou entrar em contato com o senhor Carlos Alberto Salgado para me informar, ok?
Abraços
Abraços,
Socorro Nogueira
socorronpaula@gmail.com
Até agora, não obtive sucesso, mas continuarei procurando.
Eu tbm sempre me emociono com a Itapuca e com o gentil comentário do filho de Alfredo Salgado, q honra a minha!
Beijos e obrigada a vc, por prestigiar o blog! O/
SEI QUE ELA TERMINOU SEUS DIAS EM UMA CASA NA RUA TEREZA CRISTINA O CASARÃO FOI DERRUBADO PELOS IDIOTAS SO GOVERNO ESTADUAL
Pode me enviar um e-mail?
Meu e-mail é: claudia.pettezzoni@gmail.com
Muito obrigada.
Pode contar comigo!
Te envio ainda hj o e-mail. Bjos
Beijos
Meu pai dizia que ele era uma pessoa muito boa e extremamente religioso. Tenho fotos dele aqui. Dá vontade de chorar em saber que foi totalmente abandonada.
Cláudia, bisneta do Sr. Alfredo Salgado.
E sempre passava em frente isso nos anos 70 a 80. Me lembro de sua beleza encanto.
Pena que tenham demolido.